A Morte

Cruz e Souza  (1861-1898)

 

 

Oh! que doce tristeza e que ternura
No olhar ansioso, aflito dos que morrem...
De que âncoras profundas se socorrem
Os que penetram nessa noite escura!

 

Da vida aos frios véus da sepultura
Vagos momentos trêmulos decorrem...
E dos olhos as lágrimas escorrem
Como faróis da humana Desventura.

 

Descem então aos golfos congelados
Os que na terra vagam suspirando,
Com os velhos corações tantalizados.

 

Tudo negro e sinistro vai rolando
Báratro abaixo, aos ecos soluçados
Do vendaval da Morte ondeando, uivando...

 

 

 

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João da Cruz e Sousa nasceu em 24 de novembro de 1861, em Nossa Senhora do Desterro, capital da Província de Santa Catarina, hoje Florianópolis. O nome João da Cruz vinha do santo do dia, o místico e poeta ibérico San Juan de la Cruz. Sousa era o nome da família de Guilherme Xavier de Sousa, Coronel e depois Marechal de Campo, proprietário e a seguir protetor dos pais do poeta, que tinha sido seus escravos.

Cruz e Sousa era filho de Guilherme, mestre pedreiro, e Carolina Eva da Conceição, lavadeira e cozinheira. Guilherme,o escravo, viera a pertencer a Guilherme, o senhor, por herança. Carolina Eva fora liberta no dia do seu casamento.

O Coronel Guilherme e sua esposa, Dona Clarinda Fagundes de Sousa, não tinham filhos. Criaram Cruz e Sousa como se fosse um. Aprendeu este as primeiras letra co Dona Clarinda. Em 1871 entrou no Ateneu Provincial Catarinense. Seu protetor, o já Marechal Guilherme, morrera em 1870. As condições de vida ornaram´se mais duras para ele e a família. Mas o sucesso escolar compensava as agruras, acenando-lhe com um futuro promissor para um filho de ex-escravos. A partir de 1877 começou a dar aulas particulares, preparando candidatos a vagas de professor. Sabia francês, e impressionara seus mestres, a ponto do naturalista alemão Fritz Müller citá-lo em carta ao irmão, em 1876, como exemplo de sua crença nas falsidades das teorias racistas que negavam a capacidade intelectual dos negros.

Em 1858 já lia seus poemas no ambiente doméstico. Em 1869 começou a lê-los em público, com agrado dos ouvintes. Em 1877 passou a publicá-los em jornais de Santa Catarina. Em 1881 ele e seus amigos Virgílio Varzea e Santos Lostada fundaram um jornal literário o o Colombo.

Por essa época começou a fazer conferências de propaganda abolicionista. Em 1883 o Presidente da Província o nomeou para o cargo de Promotor na cidade Laguna. Mas Cruz e Sousa não conseguiu sequer assumir o cargo, diante da reação preconceituosa dos chefes políticos locais. Deste ano até o de 1888 trabalhou em jornais, revistas, e no Centro de Imigração da Província. Em 1886 foi ao Rio Brande do Sul, sendo recebido triunfalmente como poeta já de prestígio.

Em 1888, Cruz e Sousa foi ao Rio de Janeiro, a convite de Oscar Rosas. Sua produção poética dessa época assumiu traços parnasianos, e ele acabou tornando-se um dos grandes cultores do soneto.

Em 1891 transferiu-se de vez para agora Capital da Repúlbica. Foi chamando cada vez mais a atenção da intelectualidade local, em particular dos de origem sulina. Entre estes tinham forte impacto as idéias de um novo movimento leterário que, como de costume, vindo da França, aqui deitava raízes: o Simbolismo. A partir de 1891, Cruz e Sousa começou a interessar-se pela novas idéias..

Em 1893 casou-se com Gavita Rosa Gonçalves, também descendente dos antigos escravos de origem africana. Este ano de 1893 foi marcante na vida intelectual brasileira, e na de Cruz e Sousa. Lançou dois livros, Missal e Broquéis, já tendo publicado em Desterro Tropos e Fantasias. As duas obras publicadas no Rio de Janeiro foram a pedra fundamenta da nova escola. A partir de então o Movimento Simbolista estava lançado no Brasil.

Com Gavita, Cruz e Sousa teve quatro filhos: Raul, Guilherme, Reinaldo e João. Todos, como seus pais morreram de tuberculose pulmonar. O último, João, morreu em 1915, perto de completar 15 anos. Gavita teve distúrbios de natureza mental que, além de a atormentarem, atormentaram o próprio poeta e se refletiram em seus escritos.

Em 1897 Cruz e Sousa concluiu um livro de prosa poética, Evocações. Preparava-se para publicá-lo quando, no fim do ano, apresentou-se a tuberculose pulmonar. Em março de 1898 partiu para as montanhas de Minas Gerais, em busca de tratamento e melhores ares do que os já poluída capital. Mal chegado à cidade de Sítio, naquele estado, sucumbiu. Seu corpo foi levado ao Rio num vagão de gado, coisa que chocou seus amigos e admiradores. José do Patrocínio, o conhecido tribuno da abolição, pagou os funerais e o enterro, no Cemitério de São Francisco de Xavier.

Cruz e Sousa foi dedicado e veemente abolicionista, escrevendo páginas sobre os escravos, os escravagistas, as crianças negras, que poderiam muito bem aplicar-se a nossas misérias sociais de hoje em dia.

 

Fonte: Cruz e Sousa - Melhores Poemas. Seleção Flávio Aguiar. Global Editora. 1997

 

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