Rimbaud (1854-1891)
| Talvez Ela me faça perdoar as ambições continuamente esmagadas, - que um fim azado repare os tempos de indigência, - que um dia de êxito nos adormeça sobre a vergonha de nossa fatal inabilidade, (Ó palmas! diamante! - Amor, força! - mais alto que todas as alegrias e glórias! - de qualquer modo, em toda parte, - Demônio, deus, - Juventude deste ser que sou eu!) Que os acidentes da magia científica e os movimentos de fraternidade social sejam apreciados como a restituição progressiva da liberdade primeva?... Mas a Vampira que nos faz gentis ordena que nos divirtamos com o quanto nos deixa, ou então que sejamos ainda mais palermas. Rolar nas feridas, no ar exausto e no mar; nos suplícios, pelo silêncio das águas e do ar assassinos; nas torturas que riem, em seu silêncio atrozmente encrespado. |
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Rimbaud (1854-1891) Arthur Rimbaud foi um milagre, um fenômeno de ordem sobrenatural por sua precocidade assustadora e pelo mistério de seu destino, que permanece impenetrável como seu gênio mesmo. O adolescente que compôs, entre quinze e dezenove anos, poemas fulgurantes e visionários, de uma beleza estranha; prosas inauditas; e que ele tenha atingido os cimos do pensamento, até então inviolados. Mas uma pergunta fica no ar... Por que este personagem renunciou à literatura aos dezenove anos e que, na segunda fase de sua breve existência, tenha realizado prodígios dignos de um herói em longas e fantásticas caminhadas, percorrendo a Europa e os oceanos, dando-se a mil e uma ocupações para ganhar a vida, aprendendo uma porção de línguas, para malograr, finalmente, na África, onde cumprirá o resto de seu ciclo infernal em atrozes condições e morrer como um mártir aos trinta e sete anos? Quando partiu para o continente africano, tinha algumas economias de que se orgulhava: aproximadamente quatrocentos francos. Uma vida nova abria-se para ele, rica de possibilidades e de esperança. Os horizontes mágicos da Abissínia e de Zanzibar ofereciam-se a seus sonhos. Como aqueles lugares fabulosos eram bonitos no mapa! Mas, perdendo-se na teia de aranha por ele mesmo tecida entre Aden e Djibuti, Zeilah e Harar, só iria abandonar aquele inferno ao ser alcançado pela morte. Assim foi a vida trágica de Rimbaud, único na história dos homens. A magia de seu verbo e o mistério de seu destino continuarão a exercer sobre nós um poder exaltante de sonho e de emoção. A vida terrestre de Arthur Rimbaud terminou exatamente no mesmo dia em que um editor parisiense publicava a primeira coletânea de suas poesias destinada ao grande público. Seu destino foi, ser só, terrivelmente e sempre só. Por outro lado, era um ardenês, isto é, um temperamento inflexível e difícil. Ele deixou na África alguns amigos que o choraram com sinceridade, mas antes ele brigara com quase todos os que o conheceram (Izambard, Verlaine, Todos os parnasianos, Alfred Bardey, etc.) e abandonara os outros (Delahaye, Nouveau). Sua morte o conciliou com todos. As palavras desagradáveis, os acessos de raiva foram esquecidos, e cada um, sufocando o ressentimento, foi prestar à sua memória uma homenagem de fidelidade e amizade. Graças a eles, às lembranças de uns, aos fantasmas ou uma personagem mítica, mas como um ser de carne e sangue, bem perto de nós. Devemos isto sobretudo a Verlaine: sem a fé que não parou de animar o autor de Romans sans Paroles, Rimbaud teria deixado apenas a lembrança de um boêmio de vanguarda que assustou o Quartier Latin durante uma ou duas estações. Em 1881, o nome de Rimbaud era quase totalmente desconhecido do público letrado. Foi quando Verlaine concebeu o projeto temerário de revelar que genial poeta fora o seu amigo desaparecido. Não possuía mais nada dele, nem manuscritos, nem cópias, nem documentos, tudo havia sumido no naufrágio de sua vida. Uma de suas primeiras providências é significativa: em setembro de 1881, ele arrisca pedir a Léon Valade, com quem estava brigado há dez anos, para lhe enviar, se ele os tinha, "Vaisseau ivre" (sic) e os "Veilleurs", de Rimbaud (Este poema não foi encontrado). Aí está a prova de que sua memória era também falha. Depois de dois anos de pacientes pesquisas, Verlaine estava pronto para publicar um pequeno estudo sobre o sr. Arthur Rimbaud, poeta maldito, num jornalzinho do Quartier Latin, Lutèce (outono de 1883). Dele citava, a partir de cópias mais ou menos corretas, "Voyelles", "Le bateau ivre", "Les assis", e alguns poemas ou fragmentos; o essencial estava salvo. Essa publicação valeu duas visitas a Verlaine, uma de um jovem poeta, Rodolphe Darzens, que prometeu ajudá-lo, e outra, de um certo sr. Georges Izambard, que declarou ter sido em Charleville professor e amigo "daquele Arthur", conforme as palavras de Verlaine. Pouco depois, Izambard trouxe para Verlaine, extasiado, todo o seu dossiê Rimbaud, que compreendia poemas, deveres, provas, cartas. Infelizmente, Verlaine teve a imprudência de confiar aqueles tesouros a seu editor Léon Vanier, que, durante muito tempo, não quis restituí-los de jeito nenhum --- e vendeu até vários deles (especialmente a Darzens). Três anos mais tarde, Mathilde Mauté, a ex-mulher de Verlaine, estando perto de se casar de novo, permitiu que seu irmão, Charles de Sivry, confiasse ao diretor de uma revista (La Vogue), para publicação, as Illuminations de Rimbaud que Verlaine havia emprestado a de Sivry para musicá-las, juntamente com outros poemas de 1872 (É o que se supõe. Não há outra razão plausível para que Verlaine as emprestasse. Nota). Até então, ela se opusera a essa publicação, temendo despertar incômodas lembranças. E só permitiu sob a condição de Verlaine não ter nisto nenhuma participação. No entanto, ele escreveu o prefácio da coletânea que apareceu no fim de 1886. O sucesso foi grande, mas limitado. Rimbaud era conhecido só por uma elite; falavam dele como de uma personagem lendária, como de "uma voz do além". Aprovitando-se de sua ausência, alguns jovens inconseqüentes tiveram a ousadia de lhe atribuir alguns sonetos no mais puro estilo decadente, com que o Quartier Latin se divertiu nos anos 1889-1890. Verlaine se insurgiu, mas não tinha muita força sobre a nova geração; doente, arrastava-se de hospital em hospital. Teve que lutar durante muito tempo para que acabassem com aquela brincadeira de mau gosto. Como conseguira novos textos, autênticos, de seu amigo desaparecido, ele se preparava para fazer um volume de suas obras, aí compreendida Une Saison en Enfer, que Darzens havia reencontrado. Deveria ser uma edição de luxo, com desenhos de Forain e de Régamey. Mas Darzens não perdia tempo. Tendo solicitado a Paul Demény, diretor de uma revista literária, La Jeune France, os dois cadernos de Douai escritos por Rimbaud e reunindo seus poemas de 1870, a maioria desconhecidos, teve a audácia de preparar, de sua parte, uma grande edição. Verlaine estava derrotado: suas cópias, mais ou menos exatas, não tinham o mesmo valor dos magníficos autógrafos que possuía o seu rival. Mas o editor deste último quis andar depressa demais. Aproveitando da ausência de Darzens, que tinha ido a Marselha falar com Rimbaud moribundo (ele pôde vê-lo, mas não lhe falar), precipitou a publicação e de suas impressoras saiu um volume intitulado Reliquaire, precedido de um prefácio com notas esparsas, sem estilo e com palavras muito cruas. Naturalmente, Darzens abriu um processo, a Justiça apreendeu a obra, e o editor teve que fugir para o estrangeiro. Este escândalo era bem ao gosto de Verlaine. Darzens quisera lhe passar a perna, agora tinha o troco. De posse dos preciosos textos do Reliquaire, ele se apressou em publicar, no fim de 1891, o grande volume das Poésies Complètes de Rimbaud, com que sonhava há dez anos. Logo as provas estavam prontas, quando um acontecimento imprevisto pôs tudo a perder. Isabelle Rimbaud, depois do enterro do irmão, retirara-se para Roche com a mãe. Ora, em dezembro de 1891, ela ficou surpresa ao saber, através de um artigo de Louis Pierquin, em Le Courrier des Ardennes, que seu irmão Arthur era o autor das mais belas poesias que já se escreveu. Pouco depois, ao conseguir o Reliquaire, ela pulou quando leu o prefácio onde seu irmão era descrito como um ser cruel e fingido, e ficou escandalizada quando viu publicados poemas de um tom revoltante como "Les premières communions". Sua reação foi instantânea: mandou dizer a Louis Pierquin e, através deste, a Verlaine, que proibia formalmente toda publicação das obras de seu irmão. Então, lentamente, com paciência e delicadeza, Pierquin se empenhou em dobrá-la: podiam publicar apenas alguns poemas escolhidos com um prefácio que Pierquin escreveria... admitiu Isabelle. Ela lhe ditou um prefácio bem piedoso que foi levado ao editor Vanier, que o engavetou. (Isto se passou em 1893.) Verlaine, embora não estivesse de acordo, teve a sensatez de ficar à parte e a habilidade de seduzir Isabelle escrevendo um soneto: "Toi mort, mort, mort...", cujo último verso deve ter agradado a ela:
Sempre ganhando terreno, Pierquin terminou por convencer Isabelle de que era preciso publicar tudo. Mas, no último momento, ele teve a elegância de não aparecer e deixou o prefácio a cargo de Verlaine, que ela aceitou de olhos fechados. "A justiça foi feita e bem-feita...", escreveu Verlaine quando apareceu o volume (fim de 1895). Sim, foi-lhe feita justiça, cabendo-lhe a honra de apresentar ao grande público o jovem desconhecido que, quinze anos antes, confiara nele e lhe pedira ajuda. Alguns meses mais tarde, Verlaine morreu; ele podia partir tranqüilo, sua missão estva cumprida. Isabelle dedicou o resto de seus dias à lembrança e à glória de seu irmão. Um mês depois da morte de Verlaine, recebeu uma carta entusiasmada de um jovem poeta e artista, Pierre Dufour, que assinava Paterne Berrichon. Rimbaud o tinha enfeitiçado. Juntos, comungaram na lembrança do poeta, e no ano seguinte ele pediu à sra. Rimbaud a mão de sua filha. Não sem apreensão, ela a concedeu. O casamento realizou-se em 1 de junho de 1897. Com uma paixão inquebrantável, eles colocaram Rimbaud num pedestal que nos parece hoje discutível, mas sobretudo, empenharam seus esforços para difundir sua obra (edição de 1912, prefaciada por Paul Claudel) e recolher todos os depoimentos daqueles que o conheceram (Vie de Rimbaud, escrito por Berrichon, em 1912). Eles também cumpriram sua missão. Depois, outros pesquisadores ocuparam seu lugar, animados de um igual fervor, descobrindo manuscritos, rascunhos, gravuras e documentos, melhorando incansavelmente os textos segundo os originais. No céu da poesia, o nome de Arthur Rimbaud brilha para sempre como uma estrela de primeira grandeza.
in http://www.starnews2001.com.br/rimbaud.html
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