Angústia

 Stéphane Mallarmé ( 1842-1898)

 

Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar:

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:

Pois o Vício, a roer minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto teu seio de pedra é cidade.

De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.

 

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Stéphane Mallarmé

 

Poeta francês. Integrante do movimento simbolista, sua obra antecipou a sintaxe visual da moderna poesia do século XX.

Na obra de Mallarmé, o lirismo adquiriu crescente densidade, ao mesmo tempo que se tornava mais hermético. Enquanto, como Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, dava início assim à melhor vertente do simbolismo, em seus últimos trabalhos o poeta antecipou a sintaxe visual da poesia mais moderna do século XX.

Stéphane Mallarmé nasceu em Paris, em 18 de março de 1842. Publicou seus primeiros poemas em 1862, após sentir despertada sua vocação literária pela leitura das obras de Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe. No mesmo ano viajou para Londres, a fim de aperfeiçoar os conhecimentos da língua inglesa. De volta um ano depois, lecionou inglês em várias cidades (Tournon, Besançon, Avignon) e, a partir de 1871, em colégios parisienses. Mallarmé chegou à celebridade de forma repentina, graças a Paul Verlaine e a J. K. Huysmans. O primeiro dedicou-lhe um artigo na obra Les Poètes maudits (1883; Os poetas malditos) e o segundo elogiou-o no romance À rebours (1884; Ao revés). A partir de então, foi reconhecido como um dos poetas mais eminentes da época.

Os textos de Mallarmé provocaram uma polêmica que se projeta até a atualidade, embora sua obra poética não seja extensa. Sua primeira fase reúne tanto a colaboração no Parnasse Contemporain como uma pequena quantidade de poemas, e a segunda os poemas mais longos e textos herméticos. O poeta traduziu, nessa época, The Raven (O corvo) de Edgar Allan Poe e escreveu alguns poemas em prosa. O poema "Un coup de dès jamais n'abolira le hasard" ("Um lance de dados jamais abolirá o acaso"), publicado em 1897 na revista Cosmopolis, configura uma terceira fase.

Mallarmé é muitas vezes visto somente como autor dos primeiros poemas simbolistas, publicados em 1866 no Parnasse Contemporain: "Les Fenêtres" ("As janelas"), "L'Azur" ("O azul"), "Brise marine" ("Brisa marinha") e outros, protótipos de um simbolismo melódico, de jogo metafórico quase transparente. Mas já então lançara os germes de uma inversão sintática insólita e, por isso, nem mesmo o Mallarmé dos primeiros poemas foi entendido por grande parte da crítica de orientação parnasiana.

O Parnasse Contemporain publicou ainda, em 1871, a segunda parte do poema dramático "Herodiade", na linha do poeta clássico Racine, apesar das modulações inesperadas. Em 1875, porém, os editores consideraram incompreensível e recusaram o poema "L'Après-midi d'un faune" ("A tarde de um fauno"), que leva a um ponto julgado inadmissível a deliberada inversão da sintaxe. A inversão aprofundou-se ainda mais em outros poemas e alcançou o ponto máximo nos sonetos herméticos, inclusive na série das Homenagens -- em que figura o célebre "Tombeau d'Edgar Poe" ("Túmulo de Edgar Poe").

Todos os poemas de Mallarmé representam um esforço para esgotar as formas poéticas tradicionais, até o ponto em que o próximo passo a ser tentado seria a organização de uma nova estrutura poética, independente do legado tradicional. Essa tentativa foi feita no poema dramático em prosa (de publicação póstuma) "Igitur ou La Folie d'Elbehnon". A tentativa foi retomada em "Un coup de dès jamais n'abolira le hasard", que rompe com as estruturas tradicionais da poesia.

O poema se estende no espaço de uma página dupla, escrito em caracteres variados que sugerem uma leitura múltipla e simultânea, mas não aleatória. Quase toda a moderna discussão crítica em torno de Mallarmé se centraliza nesse poema, a partir do qual a importância de sua obra anterior foi reavaliada. As inovações desse texto exerceram poderosa influência sobre as vanguardas literárias do século XX, em países como Portugal, Estados Unidos, Alemanha e Brasil (concretismo, Praxis, Ptyx, Veredas etc.), especialmente pelo modo como o poeta investiu de função expressiva a utilização dos espaços em branco e dos tipos escolhidos para a impressão, configurando pela primeira vez o que se veio a chamar "sintaxe gráfico-visual".

Poucos escritos de Mallarmé foram publicados em livro durante sua vida. A maioria apareceu em revistas ou obras coletivas, como o Parnasse Contemporain. Editaram-se em plaqueta o poema "L'Après-midi d'un faune", ilustrado por Édouard Manet, que inspirou a música homônima de Claude Debussy, e as Poésies (1887). Mallarmé deixou muitos textos em prosa, alguns reunidos em Divagations (1897; Divagações), textos complementares para sua compreensão como poeta.

Amigo de Verlaine, Rimbaud, Manet e Debussy, Mallarmé tornou-se mestre da nova geração literária (Paul Claudel, André Gide, Paul Valéry). Nas últimas décadas do século XIX, ficou célebre seu modesto mas requintado salão literário. Durante a maior parte da vida, Mallarmé dividiu seu tempo entre o círculo literário em Paris e o retiro de Valvins, perto de Fontainebleau, onde morreu, em 9 de setembro de 1898.

 

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